|
A má nutrição pode ser
decorrente de uma diminuição da nutrição
ou da nutrição excessiva. Ambas as condições
são causadas por um desequilíbrio entre as
necessidades de nutrientes essenciais do organismo e a ingestão
dos mesmos. A desnutrição, uma deficiência
de nutrientes essenciais, pode ser decorrente da ingestão
inadequada devida a uma dieta ruim ou à má
absorção intestinal (má absorção),
da utilização anormalmente elevada de nutrientes
pelo organismo ou da perda anormal de nutrientes através
da diarréia, do sangramento (hemorragia), da insuficiência
renal ou da sudorese excessiva.
A hipernutrição, um excesso
de nutrientes essenciais, pode ser decorrente do consumo
exagerado de alimentos, do uso excessivo de vitaminas ou
de outros suplementos ou da falta de exercício. A
desnutrição ocorre em estágios. Inicialmente,
ocorrem alterações nas concentrações
de nutrientes nos sangues e nos tecidos. A seguir, ocorrem
alterações nos níveis enzimáticos.
Posteriormente, os órgãos e tecidos começam
a apresentar disfunções e, em seguida, manifestam-
se os sinais de doença e a morte.
O organismo necessita mais nutrientes durante
determinados períodos da vida, sobretudo na primeira
e na segunda infância e na adolescência, durante
a gravidez e durante a amamentação. Na velhice,
as necessidades nutricionais são menores, mas a capacidade
de absorção dos nutrientes freqüentemente
encontra-se reduzida. Portanto, o risco de desnutrição
é maior nessas etapas da vida e mais ainda entre
os indivíduos pobres.
Avaliação Nutricional
Para avaliar o estado nutricional de um indivíduo,
o médico investiga a dieta e os problemas médicos,
realiza um exame físico e solicita alguns exames
laboratoriais. São dosadas as concentrações
séricas (do sangue) de nutrientes e de substâncias
que dependem das concentrações de nutrientes
(p.ex., hemoglobina, hormônios tireoidianos e transferrina).
Para determinar os hábitos alimentares de um indivíduo,
o médico questiona sobre os alimentos ingeridos nas
últimas 24 horas e quais são os tipos de alimentos
normalmente consumidos. Ele pode solicitar ao indivíduo
que mantenha um diário no qual ele deve relacionar
todos os alimentos consumidos durante 3 dias. Ao exame físico,
o médico observa o estado geral e o comportamento
do indivíduo, assim como a distribuição
da gordura corpórea. Além disso, ele avalia
o funcionamento dos diversos órgãos do corpo.
As deficiências nutricionais podem
causar vários problemas médicos. Por exemplo,
uma hemorragia digestiva pode causar anemia ferropriva (por
deficiência de ferro). Um indivíduo que está
sendo tratado de acne com doses elevadas de vitamina A pode
apresentar cefaléia (dor de cabeça) e visão
dupla em decorrência da toxicidade da vitamina. Qualquer
sistema orgânico pode ser afetado por um distúrbio
nutricional. Por exemplo, o sistema nervoso é afetado
pela pelagra (deficiência de niacina), pelo beribéri,
pela deficiência ou pelo excesso de vitamina B6 (piridoxina)
e pela deficiência de vitamina B12. O paladar e o
olfato são afetados pela deficiência de zinco.
O sistema cardiovascular é afetado pelo beribéri
e pela obesidade. Uma dieta rica em gorduras acarreta a
hipercolesterolemia e a doença coronariana e uma
dieta rica em sal causa hipertensão arterial. O trato
gastrointestinal é afetado pela pelagra, pela deficiência
de ácido fólico e pelo alcoolismo.
A boca (lábios, língua, gengiva
e membranas mucosas) é afetada pela deficiência
de vitaminas do complexo B e pelo escorbuto. A deficiência
de iodo pode acarretar um aumento da tireóide. O
escorbuto, a deficiência de vitamina K, a deficiência
de vitamina A e o beribéri podem acarretar uma tendência
ao sangramento e sintomas cutâneos como, por exemplo,
erupções, ressecamento da pele e aumento de
volume devido ao edema (retenção líquida).
O raquitismo, a osteomalácia, a osteoporose e o escorbuto
afetam os ossos e as articulações. O estado
nutricional de um indivíduo pode ser determinado
de várias maneiras. Um dos métodos consiste
na mensuração do peso e da altura, comparando
os valores obtidos com os valores apresentados por tabelas
padronizadas.
Quem Apresenta Risco de Subnutrição?
| |
Os lactentes e as crianças
menores com pouco apetite
Os adolescentes em etapa de crescimento rápido
As mulheres grávidas ou em período
de amamentação
Os idosos
Os indivíduos com doença crônica
do trato gastrointestinal, do fígado ou dos rins,
sobretudo se perderam recentemente 10 a 15% do peso
corpóreo
Os indivíduos que se submetem a dietas
agressivas ou da moda durante um período
prolongado
Os vegetarianos
Os indivíduos com dependência ao
álcool ou a drogas que não se alimentam
adequadamente
Os indivíduos com AIDS
Os indivíduos que utilizam medicamentos
que interferem no apetite, na absorção
ou na excreção de nutrientes
Os indivíduos com anorexia nervosa
Os indivíduos com febre prolongada, hipertireoidismo,
queimaduras ou câncer |
|
Um outro método consiste no cálculo
do índice de massa corpórea, o qual é
obtido dividindo-se o peso (em quilogramas) pela estatura
(em metros quadrados. Geralmente, um indíce de massa
corpórea de 20 a 25 é considerado normal para
homens e mulheres. No entanto, existe um outro método
para se determinar o estado nutricional pela mensuração
da espessura das pregas cutâneas. Uma prega cutânea
localizada na face posterior do antebraço (prega
cutânea do tríceps) é distendida de
tal forma que a camada de gordura sob a pele possa ser mensurada
com um compasso medidor. A gordura subcutânea representa
50% da gordura corpórea. Uma medida da prega cutânea
de 1,25 cm em homens e de 2,5 cm em mulheres é considerada
normal.
O estado nutricional também pode ser
avaliado pela circunferência do diâmetro do
braço esquerdo, para se estimar a quantidade de músculo
esquelético no corpo (massa corpórea magra).
As radiografias podem ajudar a determinar a densidade óssea
e a condição do coração e dos
pulmões. Elas também podem detectar distúrbios
gastrointestinais causados pela desnutrição.
Quando o médico suspeita de uma desnutrição
grave, ele pode solicitar um hemograma completo e exames
de sangue e urina para mensurar os níveis de vitaminas,
minerais e produtos da degradação metabólica
(p.ex., uréia). Também podem ser solicitados
exames cutâneos para avaliar certos tipos de imunidade.
Quem Apresenta Risco de Hipernutrição?
| |
As crianças e adultos
com bom apetite, mas que não se exercitam
Os indivíduos que apresentam um sobrepeso
superior a 20%
Os indivíduos cuja dieta é rica
em gorduras e sal
Os indivíduos que tomam doses altas de
ácido nicotínico (niacina) para tratar
a hipercolesterolemia
As mulheres que tomam doses altas de vitamina
B6 (piridoxina) para tratar a síndrome pré-menstrual
Os indivíduos que tomam doses altas de
vitamina A devido a distúrbios cutâneos
Os indivíduos que tomam doses altas de
ferro ou de outros elementos vestigiais sem prescrição
médica |
|
Fatores de Risco
Os lactentes e as crianças apresentam
um maior risco de subnutrição porque necessitam
de uma maior quantidade de calorias e de nutrientes nutrientes
para o crescimento e o desenvolvimento. Eles podem apresentar
deficiências de ferro, de ácido fólico,
de vitamina C e de cobre em decorrência de dietas
inadequadas. A ingestão insuficiente de proteínas,
de calorias e de outros nutrientes pode levar a uma desnutrição
protéico calórica, uma forma particularmente
grave de subnutrição, a qual provoca um retardo
do crescimento e do desenvolvimento. Nos recém-nascidos,
uma tendência ao sangramento (doença hemorrágica
do recém-nascido), causada por deficiência
de vitamina K, pode ser letal. À medida que as crianças
aproximam-se da adolescência, as suas necessidades
nutricionais aumentam, pois a velocidade do crescimento
aumenta.
Uma mulher grávida ou em período
de amamentação tem uma maior necessidade de
nutrientes para evitar a própria desnutrição
e a do lactente. Durante a gestação, é
recomendada a suplementação de ácido
fólico para reduzir o risco de malformações
cerebrais ou da coluna vertebral (espinha bífida)
no concepto. Embora as mulheres que fizeram uso de contraceptivos
orais apresentem maior probabilidade de desenvolver deficiência
de ácido fólico, não existem provas
de que o feto apresentará deficiência.
O filho de uma mulher alcoolista pode apresentar
comprometimento físico e mental devido à síndrome
do alcoolismo fetal, pois o consumo abusivo de álcool
e a conseqüente desnutrição afetam o
desenvolvimento fetal. Um lactente alimentado exclusivamente
com leite materno pode desenvolver deficiência de
vitamina B12 quando a mãe é vegetariana e
não consome produtos animais (vegetariana convicta).
Os indivíduos idosos podem tornar-se desnutridos
devido à solidão, ao comprometimento físico
ou mental, à imobilidade ou a uma doença crônica.
Além disso, ocorre uma redução em sua
capacidade de absorção de alimentos e isto
pode contribuir para o desenvolvimento de condições
como a anemia ferropriva, a osteoporose e a osteomalácia.
O envelhecimento é acompanhado por
uma perda progressiva da massa muscular, a qual não
está relacionada a qualquer doença ou deficiência
nutricional. Em média, essa perda é de aproximadamente
10 quilos para os homens e 5 quilos para as mulheres. Ela
é responsável pelo alentecimento do metabolismo,
pela diminuição do peso corpóreo e
pelo aumento da gordura corpórea de aproximadamente
20 a 30% para os homens e de 27 a 40% para as mulheres.
Devido a essas alterações e à redução
da atividade física, os indivíduos idosos
necessitam de uma menor quantidade de calorias e de proteínas
do que os indivíduos mais jovens.
Tabela de Referência de Altura-Peso
Para Adultos*
| |
|
|
Peso
(Kg)
|
|
|
| |
Altura (cm)
|
|
Mulheres
|
|
Homens
|
|
|
| |
147
|
|
41,73 54,88
|
|
-
|
|
| |
150
|
|
43,09 56,25
|
|
-
|
|
| |
152
|
|
44,45 57,61
|
|
-
|
|
| |
155
|
|
45,81 58,97
|
|
47,63 60,78
|
|
| |
158
|
|
47,17 60,78
|
|
48,99 62,14
|
|
| |
160
|
|
48,53 62,60
|
|
50,35 63,96
|
|
| |
163
|
|
49,90 64,41
|
|
51,71 65,77
|
|
| |
165
|
|
51,71 66,22
|
|
53,07 67,59
|
|
| |
168
|
|
53,52 68,04
|
|
54,88 69,85
|
|
| |
170
|
|
55,34 69,85
|
|
56,70 72,12
|
|
| |
173
|
|
57,15 72,12
|
|
58,51 73,94
|
|
| |
175
|
|
58,97 74,39
|
|
60,33 75,75
|
|
| |
178
|
|
60,78 76,66
|
|
62,14 78,02
|
|
| |
180
|
|
-
|
|
63,96 80,29
|
|
| |
183
|
|
-
|
|
65,77 82,55
|
|
| |
185
|
|
-
|
|
67,59 84,82
|
|
| |
188
|
|
-
|
|
69,40 87,09
|
|
| |
190
|
|
-
|
|
71,21 89,36
|
|
| |
|
|
|
|
|
|
Os indivíduos com doenças crônicas
que causam má absorção tendem a apresentar
problemas de absorção das vitaminas lipossolúveis
(A, D, E e K), de vitamina B12, de cálcio e de ferro.
As doenças hepáticas comprometem o armazenamento
das vitaminas A e B12 e interferem no metabolismo das proteínas
e da glicose (um tipo de açúcar). Os indivíduos
com uma doença renal, inclusive aquelas submetidas
à diálise, apresentam uma tendência
à apresentar deficiências de proteínas,
de ferro e de vitamina D. Quase todos os vegetarianos são
ovolactovegetarianos, isto é, não consomem
carne vermelha e peixe, mas consomem ovos e produtos laticínios.
O único risco desse tipo de dieta
é a deficiência de ferro. Os ovolactovegetarianos
tendem a viver mais e a desenvolver menos condições
incapacitantes do que aqueles que consomem carne. No entanto,
a sua melhor saúde também pode ser decorrente
de sua abstenção de álcool e de tabaco
e de sua tendência a realizar exercícios regularmente.
Os vegetarianos que não consomem produtos animais
(vegetarianos convictos) possuem risco de apresentar deficiência
de vitamina B12. Os alimentos orientais e outros alimentos
fermentados (p.ex., molhos de peixe) podem prover a vitamina
B12. Muitas dietas da moda proclamam a sua capacidade de
aumentar o bem-estar ou de reduzir o peso. No entanto, as
dietas altamente restritivas são, do ponto de vista
nutricional, nocivas. Elas provocam deficiências de
vitaminas, minerais e proteínas, assim como distúrbios
cardíacos, renais e metabólicos, inclusive
algumas mortes. As dietas excessivamente hipocalóricas
(menos de 400 calorias por dia) não asseguram a saúde
por muito tempo.
A dependência ao álcool ou a
drogas pode alterar o estilo de vida do indivíduo
até o ponto em que ele passa a descuidar da nutrição
e, conseqüentemente, ocorre uma deterioração
da absorção e do metabolismo dos nutrientes.
O alcoolismo é a forma mais comum de dependência
à droga, com efeitos graves sobre o estado nutricional.
Quando consumido em grandes quantidades, o álcool
é um produto tóxico que lesa os tecidos, sobretudo
o trato gastrointestinal, o fígado, o pâncreas
e o sistema nervoso (incluindo o cérebro). Os indivíduos
que bebem cerveja e continuam a comer podem ganhar peso.
No entanto, aqueles que consomem diariamente uma garrafa
de bebida com elevado teor alcoólico tendem a perder
peso e a tornar-se desnutridas. O alcoolismo é a
causa mais comum de deficiência de vitamina B1 (tiamina)
nos Estados Unidos e também pode acarretar deficiências
de magnésio, de zinco e de outras vitaminas.
Administração de Nutrientes
Quando os nutrientes não podem ser
administrados pela boca, eles podem ser administrados através
de uma sonda (alimentação por sonda) colocada
no trato gastrointestinal (nutrição enteral)
ou podem ser administrados pela via intravenosa (nutrição
parenteral). Esses métodos podem ser utilizados na
alimentação de pessoas que não desejam
ou são incapazes de se alimentar ou não conseguem
digerir e absorver nutrientes.
Como a Inanição Afeta
os Sistemas do Corpo
| |
Sistema
|
|
Efeitos
|
|
|
| |
Sistema digestivo |
|
Baixa
produção de ácido pelo estômago
Diarréia freqüente, freqüentemente
fatal |
|
|
| |
Sistema cardiovascular
(coração e vasos sangüíneos) |
|
Redução
do tamanho do coração, menor volume de
sangue bombeado, freqüência cardíaca
baixa e hipotensão arterial
Em última instância, insuficiência
cardíaca |
|
|
| |
Sistema respiratório |
|
Respiração
lenta, capacidade pulmonar reduzida
Em última instância, insuficiência
respiratória |
|
|
| |
Sistema reprodutivo |
|
Redução
do tamanho dos ovários nas mulheres e dos testículos
nos homens
Perda do impulso sexual (libido)
Cessação dos períodos menstruais |
|
|
| |
Sistema nervoso |
|
Apatia
e irritabilidade, embora o intelecto permaneça
intacto |
|
|
| |
Sistema muscular |
|
Baixa
capacidade para realizar exercícios ou trabalhar
devido à redução do tamanho e da
força dos músculos |
|
|
| |
Sistema hematológico
(sangue) |
|
Anemia |
|
|
| |
Sistema metabólico |
|
Hipotermia
(temperatura corpórea baixa), freqüentemente
contribuindo para a morte
Acúmulo de líquido na pele, resultante
principalmente do desaparecimento da gordura subcutânea |
|
|
| |
Sistema imune |
|
Comprometimento
da capacidade de combater infecções e
reparar feridas |
|
|
Alimentação Enteral
A alimentação enteral é
utilizada em várias situações como,
por exemplo, na recuperação de queimaduras
e das doenças inflamatórias intestinais. Uma
sonda de alimentação de plástico fino
(sonda nasogástrica) é introduzida através
da narina e delicadamente conduzida através da garganta
até o estômago ou o intestino delgado. Apesar
da passagem da sonda ser um procedimento um pouco desconfortável,
a maioria dos indivíduos sente pouco desconforto
após a sonda ser posicionada. Quando a alimentação
enteral deve ser prolongada, ela pode ser colocada diretamente
no estômago ou no intestino delgado através
de uma pequena incisão realizada na parede abdominal.
As soluções utilizadas na alimentação
enteral contêm todos os nutrientes de que o paciente
necessita (p.ex., proteínas, carboidratos, gorduras,
vitaminas e elementos vestigiais). As gorduras fornecem
2 a 45% das calorias totais. Os problemas provocados pela
alimentação enteral são incomuns e
raramente graves. Alguns indivíduos apresentam diarréia
e desconforto abdominal. A sonda nasogástrica pode
irritar e inflamar o esôfago. A aspiração
de alimentos aos pulmões, a qual é uma complicação
grave mas incomum, pode ser evitada com a elevação
da cabeceira da cama para diminuir a regurgitação,
assim como pela administração lenta da solução.
Nutrição Parenteral
A nutrição parenteral é
utilizada quando o indivíduo não pode receber
alimentação adequada através da sonda
nasogástrica. Por exemplo, os indivíduos que
se encontram gravemente desnutridos e que necessitam submeter-se
a uma cirurgia, à radioterapia ou à quimioterapia,
aqueles que sofreram queimaduras graves, paralisia do trato
gastrointestinal ou aqueles que apresentam diarréia
ou vômitos persistentes devem ser alimentados pela
via intravenosa. A nutrição parenteral pode
suprir uma parte ou a totalidade das necessidades nutricionais
de um indivíduo (nutrição parenteral
total). As soluções disponíveis podem
ser modificadas para aqueles que apresentam uma doença
renal ou hepática. A nutrição parenteral
total requer a passagem de um cateter intravenoso mais grosso
que os normalmente utilizados para a administração
de líquidos intravenosos.
Conseqüentemente, utiliza-se uma veia
mais grossa como, por exemplo, a veia subclávia que
se encontra localizada logo abaixo da clavícula.
O indivíduo que recebe nutrição parenteral
total é rigorosamente monitorizado, verificandose
a ocorrência de alterações do peso e
do débito urinário e de sinais de infecção.
Quando a glicemia (concentração de glicose
no sangue) torna-se demasiadamente elevada, o médico
pode adicionar insulina à solução.
A infecção é um risco constante, pois
o cateter normalmente é mantido no local durante
um tempo prolongado e as soluções alimentares
que passam através do mesmo possuem um alto conteúdo
de glicose, uma substância na qual as bactérias
podem crescer com facilidade. A nutrição parenteral
total pode causar outras complicações. Quando
muitas calorias são consumidas (sobretudo as provenientes
das gorduras), o fígado pode aumentar de tamanho.
O excesso de gordura nas veias pode causar dores nas costas,
febre, calafrios, náusea e contagem baixa de plaquetas.
No entanto, esses problemas ocorrem em menos de 3% dos indivíduos
submetidos à nutrição parenteral total.
A nutrição parenteral total prolongada pode
produzir dor óssea.
Inanição
A inanição pode ser decorrente
do jejum, de uma carência de alimentos, da anorexia
nervosa, de uma doença gastrointestinal grave, de
um acidente vascular cerebral ou do coma. O organismo resiste
à inanição decompondo seus próprios
tecidos e usando-os como fonte de calorias, de modo muito
semelhante à queima de móveis para manter
a casa aquecida. Conseqüentemente, os órgãos
internos e os músculos sofrem lesão progressiva
e a gordura corpórea (tecido adiposo) praticamente
desaparece. Os adultos podem perder até metade do
seu peso corpóreo e as crianças podem perder
ainda mais. A perda de peso proporcional é maior
no fígado e nos intestinos, moderada no coração
e nos rins e menor no sistema nervoso. Os sinais mais evidentes
de emagrecimento são a perda de massa em áreas
onde o corpo normalmente armazena gordura, a redução
da massa muscular e os ossos salientes. A pele torna-se
fina, seca, inelástica, pálida e fria. O cabelo,
o qual torna-se ressecado e ralo, cai com facilidade. A
maioria dos sistemas orgânicos é afetada. A
inanição total é fatal em oito a doze
semanas.
Tratamento
O restabelecimento da ingestão de
alimentos às quantidades normais requer um tempo
considerável, dependendo do período que o
indivíduo permaneceu sem alimentar-se e do grau de
comprometimento do corpo. O trato gastrointestinal atrofia
durante a inanição e não consegue acomodar
adequadamente uma dieta normal. Os líquidos (sucos,
leites, caldos e sopas leves) são recomendados para
os indivíduos que conseguem alimentar-se pela boca.
Após alguns dias de dieta líquida, pode ser
iniciada uma dieta sólida, aumentando-se a quantidade
de calorias diárias até 5.000 ou mais. Normalmente,
são recomendados os alimentos pastosos. Estes são
administrados freqüentemente e em pequenas porções
para evitar a diarréia. O indivíduo deve recuperar
entre 1.5 e 2 quilos por semana até atingir o peso
normal. Alguns necessitam ser alimentados inicialmente através
de uma sonda nasogástrica. Quando a má absorção
e a diarréia persistem, a nutrição
parenteral pode ser necessária.
Desnutrição Protéico-Calórica
Entre a inanição e a nutrição
adequada, existem vários graus de nutrição
inadequada, como a desnutrição protéico-calórica
(principal causa de mortalidade infantil nos países
em desenvolvimento). A desnutrição protéico-calórica
é causada pelo consumo inadequado de calorias, resultando
em uma deficiência de proteínas e micronutrientes
(nutrientes necessários em pequenas quantidades como,
por exemplo, as vitaminas e os elementos vestigiais). O
crescimento rápido, uma infecção, uma
lesão ou uma doença crônica debilitante
podem aumentar a necessidade de nutrientes, sobretudo em
lactentes e crianças de baixa idade desnutridas.
Sintomas
Existem três tipos de desnutrição
protéicocalórica: seca (o indivíduo
encontra-se magro e desidratado), úmida (o indivído
encontra-se edemaciado devido à retenção
líquida) e um tipo intermediário. O tipo seco,
denominado marasmo, é decorrente de uma inanição
quase total. Uma criança com marasmo consome pouquíssimo
alimento, freqüentemente por causa da incapacidade
da mãe de amamentar e torna-se muito magra devido
à perda de massa muscular e de gordura corpórea.
Quase invariavelmente, o paciente apresenta uma infecção.
Quando a criança sofre uma lesão ou um traumatismo
ou quando a infecção dissemina, o prognóstico
é pior e a sua vida corre perigo. O tipo úmido
é denominado kwashiorkor, uma palavra africana que
significa primeiro filho-segundo filho. Esta
expressão tem sua origem na orbservação
de que o primeiro filho apresenta kwashiorkor ao nascimento
do segundo filho, que toma o seu lugar no peito da mãe.
O primogênito submetido ao desmame é alimentado
com um mingau ralo de aveia de baixa qualidade nutricional
em comparação com o leite materno e, conseqüentemente,
a criança não desenvolve.
A deficiência protéica no kwashiorkor
normalmente é mais importante que a deficiência
calórica (de energia), acarretando retenção
líquida (edema), doenças cutâneas e
alteração da cor do cabelo. Como as crianças
apresentam o kwashiorkor após serem desmamadas, elas
normalmente são maiores do que aquelas que apresentam
o marasmo. O tipo intermediário de desnutrição
protéicocalórica é denominado Kwashiorkor
marásmico. As crianças com esse tipo de distúrbio
apresentam uma certa retenção líquida
e têm mais gordura corpórea do que aquelas
que apresentam marasmo. O kwashiorkor é menos comum
que o marasmo e, na maioria dos casos, manifesta-se como
o kwashiorkor marásmico.
Ele tende a ocorrer em determinadas áreas
do mundo (áreas rurais da África, Caribe,
ilhas do Pacífico e sudeste asiático), onde
os produtos do país e os alimentos utilizados durante
o desmame dos lactentes (p.ex., inhame, mandioca, arroz,
batata-doce e banana verde) são pobres em proteínas
e contêm quantidades excessivas de amido. No marasmo,
assim como na inanição, o corpo decompõe
seus próprios tecidos para usar suas calorias. Os
carboidratos armazenados no fígado são consumidos,
as proteínas musculares são degradas para
sintetizar novas proteínas e a gordura armazenada
é metabolizada para produzir calorias. Como conseqüência,
o corpo inteiro atrofia.
No kwashiorkor, o organismo possui uma menor
capacidade de sintetizar novas proteínas. Conseqüentemente,
o concetração sangüínea de proteínas
diminui, acarretando um acúmulo de retenção
líquida (edema) nos membros inferiores e superiores.
A concentração de colesterol também
diminui e o fígado torna-se gorduroso e aumenta de
volume (devido ao acúmulo excessivo de gorduras em
suas células). A carência de proteínas
compromete o crescimento, a imunidade, a capacidade de reparar
tecidos lesados e a produção de enzimas e
de hormônios do corpo. Tanto no marasmo quanto no
kwarshiokor, a diarréia é comum. O desenvolvimento
comportamental pode ser acentuadamente lento na criança
gravemente desnutrida e o retardo mental pode ocorrer. Normalmente,
uma criança com marasmo é afetada mais gravemente
do que a criança maior com kwarshiokor.
Tratamento
Um lactente com desnutrição
protéico-calórica normalmente recebe nutrição
parenteral durante as primeiras 24 a 48 horas após
ser internado em um hospital. Como esses bebês invariavelmente
apresentam infecções graves, um antibiótico
é normalmente adicionado aos líquidos intravenosos.
Assim que a criança comece a tolerá-la, uma
fórmula a base de leite é administrada pela
via oral. A quantidade de calorias administradas é
gradualmente aumentada, de modo que um lactente que pesava
6 a 8 quilos no momento da admissão ganha aproximadamente
3,5 quilos ao longo de 12 semanas.
Prognóstico
Aproximadamente 40% das crianças com
desnutrição protéico-calórica
morrem. A morte durante os primeiros dias de tratamento
é normalmente causada por um desequilíbrio
eletrolítico, uma infecção, uma hipotermia
(temperatura corpórea anormalmente baixa) ou uma
insuficiência cardíaca. Os sinais de alarme
são o estupor (estado de semi-inconsciência),
a icterícia, as pequenas hemorragias cutâneas,
a concentração baixa de sódio no sangue
e a diarréia persistente. Os sinais favoráveis
são o desaparecimento da apatia, do edema e da falta
de apetite. Comparado ao marasmo, a recuperação
do kwarshiokor é mais rápida. Os efeitos a
longo prazo da desnutrição na infância
são desconhecidos. Quando as crianças são
adequadamente tratadas, o fígado e o sistema imune
recuperam-se completamente. No entanto, em algumas crianças,
a absorção de nutrientes no intestino permanece
comprometida. O grau de comprometimento mental está
relacionado à duração da desnutrição,
à sua gravidade e em que idade ela iniciou. Um grau
leve de retardo mental pode persistir até a idade
escolar e possivelmente por mais tempo.
|