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Sumário
Manual Merck -  Sade Para a Fam lia
Seção 23 - Problemas de Saúde na Infância
Capítulo 265 - Distúrbios Gastrointestinais


A maioria dos distúrbios gastrointestinais em crianças causa dor. Muitos deles (p.ex., doença celíaca e a intolerância à lactose,) também causam desnutrição e diarréia.

A dor pode iniciar subitamente e pode ser intensa, como ocorre na apendicite aguda, ou pode ser menos intensa e intermitente (vem e vai). Os distúrbios gastrointestinais nos quais a dor geralmente é intermitente incluem a dor abdominal recorrente, a úlcera péptica e o divertículo de Meckel.

Dor Abdominal Recorrente

A dor abdominal recorrente é caracterizada por três ou mais episódios de dor abdominal que ocorrem ao longo de um período de pelo menos 3 meses.

Mais de 10% de todas as crianças em idade escolar apresentam dor abdominal recorrente. Este distúrbio é mais comum entre os 8 e 10 anos, sendo raro em crianças com menos de 4 anos. A dor abdominal recorrente é ligeiramente mais freqüente entre as meninas que entre os meninos, sendo razoavelmente comum entre as meninas no início da adolescência.

Causas

Em apenas 5 a 10% das crianças com dor abdominal recorrente, a dor é causada por uma doença física. As doenças que podem causar a dor abdominal recorrente variam enormemente e incluem os distúrbios genitourinários, os distúrbios intestinais e doenças sistêmicas.

Algumas vezes, a dor abdominal recorrente é causada pelo funcionamento anormal de órgãos internos. Por exemplo, o intestino pode funcionar anormalmente quando a dieta da criança é inadequada, especialmente quando a criança não tolera determinados alimentos (p.ex., leite e produtos laticínios). Uma outra razão de funcionamento intestinal anormal é a constipação resultante da diminuição da atividade do cólon, algumas vezes como uma reação ao treinamento inadequado do uso do vaso sanitário. Nas adolescentes, a dor abdominal pode ser causada por câimbras musculares no útero durante um período menstrual doloroso (dismenorréia). Ocasionalmente, a liberação de um óvulo pelo ovário durante o ciclo menstrual é acompanhada de dor.

Em 80 a 90% dos casos, a dor abdominal recorrente tem uma causa psicológica e não uma causa física ou funcional. A dor de causa psicológica aparentemente é desencadeada ou piorada pela tensão, ansiedade ou depressão.

Sintomas

Os sintomas de dor abdominal recorrente variam de acordo com a causa. A dor causada por uma doença física geralmente não desaparece ou pode ocorrer em ciclos, sendo freqüentemente desencadeada por determinadas atividades ou por determinados alimentos. A dor tende a ocorrer em um local específico do abdômen, habitualmente não em torno do umbigo, e pode irradiar para as costas. Uma infecção do trato urinário pode causar dor abdominal ou pélvica e não nas costas, como ocorre nos adultos. Freqüentemente, a dor pode despertar a criança durante o sono.

Dependendo da causa física subjacente, a criança pode apresentar qualquer um dos seguintes sintomas: inapetência, perda de peso, febre recorrente ou persistente, icterícia, alterações do aspecto e da cor das evacuações, constipação ou diarréia, sangue nas fezes, vômito alimentar ou com sangue, distensão abdominal, dor ou edema articular. Os sintomas da dor abdominal recorrente causados pelo funcionamento anormal de algum órgão variam de acordo com a causa subjacente. Por exemplo, quando uma criança apresenta intolerância à lactose, a dor pode ocorrer em alguns minutos ou até duas horas após ela haver consumido leite ou um produto laticínio. Quando uma criança apresenta uma doença da vesícula biliar, a dor abdominal pode começar logo após ela consumir alimentos gordurosos.

A dor causada por fatores psicológicos pode ocorrer diariamente ou esporadicamente. Ocasionalmente, a criança não sente dor durante semanas ou meses. Geralmente, a dor não é aguda, ela é mais freqüentemente descrita de modo vago, mas, algumas vezes, como cólicas. Este tipo de dor raramente desperta a criança durante a noite, mas ela pode despertar mais cedo que o usual.

Mais freqüentemente, a dor abdominal de causa psicológica é sentida em torno do umbigo. Quanto mais distante do umbigo for a localização da dor, maior a probabilidade de sua causa ser física. Algumas vezes, a dor psicológica assemelha-se à causada por um distúrbio físico, mas ela geralmente não muda e nem piora. Uma alteração significativa na natureza da dor pode indicar que a criança também apresenta algum distúrbio físico.

Algumas Causas Físicas de Dor Abdominal Recorrente

Distúrbios Intestinais
• Hérnia hiatal
• Hepatite (inflamação do fígado)
• Colecistite (inflamação da vesícula biliar)
• Pancreatite (inflamação do pâncreas)
• Úlcera péptica
• Infestação por parasitas (p.ex., giardíase)
• Divertículo de Meckel
• Doença de Crohn
• Tuberculose do intestino
• Colite ulcerativa
• Apendicite crônica

Distúrbios genitourinários
• Defeitos congênitos
• Infecção do trato urinário
• Doença inflamatória pélvica (em meninas)
• Cisto ovariano (em meninas)
• Endometriose (em meninas)

Enfermidades gerais
• Intoxicação por chumbo
• Púrpura de Henoch-Schönlein
• Doença da célula falciforme
• Alergia alimentar
• Porfiria
• Anemia familiar do Mediterrâneo
• Angioedema hereditário
• Enxaqueca

Diagnóstico

Para determinar a causa da dor, o médico formula algumas questões à criança ou aos seus pais: Como é a dor? Quando ela se manifesta? Qual a sua localização? O que a desencadeia? O que a piora ou a melhora? Ele também investiga a ocorrência de outros sintomas como, por exemplo, náusea, vômito, febre ou erupção cutânea, que ocorrem concomitantemente com a dor.

Caracterizar uma dor de origem psicológica pode ser difícil. Primeiramente, o médico assegura-se que a dor não é causada por um distúrbio físico. A criança pode estar afetada pela tensão doméstica devido a uma doença recente na família, a problemas financeiros ou a uma separação ou a perda de uma pessoa amada. As crianças que se encontram sob tensão apresentam a mesma probabilidade de adoecer fisicamente que qualquer outra pessoa.

Prevenção e Tratamento

O tratamento da dor abdominal recorrente de causa física ou funcional depende do problema subjacente. Por exemplo, quando a dor é provocada pelo consumo de determinados alimentos, uma alteração da dieta pode ajudar. O uso de analgésicos (p.ex., ibuprofeno) pode ajudar a aliviar as cólicas menstruais.

A dor abdominal recorrente de causa psicológica não é uma dor imaginária, é um tipo de dor causada por fatores como o estresse e a tensão. Os pais podem ajudar, reduzindo o estresse e a tensão o máximo possível, ajudando a criança a enfrentar o estresse inevitável e incentivando a criança a freqüentar a escola apesar da dor. Os professores podem ajudar solucionando os conflitos relacionados à escola.

Na escola, o professor deve permitir que a criança que necessita de um repouso de 15 a 30 minutos dirija-se à enfermaria da escola para descansar. Com a permissão dos pais, quando necessário, o enfermeiro pode lhe dar um analgésico leve (p.ex., ibuprofeno ou acetaminofeno). Em alguns casos, o enfermeiro pode permitir que a criança telefone para um dos genitores, o qual pode então encorajar o seu filho a permanecer na escola.

Geralmente, a criança pede para permanecer na enfermaria uma ou mais vezes por dia durante os 7 a 14 primeiros dias de tratamento. Habitualmente, este comportamento cessa rapidamente. Em geral, quando os pais deixam de tratar a criança como alguém diferente ou doente, a dor de causa psicológica piora no início, mas, a seguir, ela melhora. Geralmente, o médico avalia a criança com uma dor abdominal de causa psicológica em intervalos regulares (semanalmente, mensalmente ou a cada dois meses) de acordo com as necessidades da mesma. Após a resolução do problema, o médico pode desejar acompanhar a criança regularmente durante alguns meses. O tratamento nem sempre é eficaz. Algumas crianças apresentam vários outros sintomas físicos ou dificuldades emocionais. Quando, apesar de todos os esforços, a dor persistir, especialmente quando a criança torna-se deprimida ou quando existem problemas conjugais ou psicológicos em casa, pode ser necessário encaminhá-la a um profissional da área da saúde mental.

Úlcera Péptica

Uma úlcera péptica é uma ferida redonda ou oval, bem definida, onde o revestimento do estômago ou duodeno foi lesado ou sofreu erosão pelos ácidos gástricos e sucos digestivos.

Em um recém-nascido, o primeiro sintoma de uma úlcera péptica pode ser a presença de sangue nas fezes. Quando uma úlcera perfura o estômago ou o intestino delgado, a criança pode demonstrar sinais de dor. É provável que ela apresente febre. Em lactentes maiores e crianças pequenas, a presença de sangue nas fezes pode ser acompanhada por episódios repetidos de vômito ou dor abdominal. Freqüentemente, a dor piora ou melhora com a alimentação. A dor também pode despertar a criança durante a noite. Aproximadamente 50% das crianças com úlcera no duodeno (a parte do intestino delgado próxima do estômago) têm familiares próximos que apresentam o mesmo distúrbio.

Muitas crianças com úlcera crônica estão infectadas com uma bactéria chamada Helicobacter pylori. Ainda não está claro se ela causa a úlcera ou se ela apenas impede que a úlcera cicatrize, mas foi observado que a sua erradicação resulta na cicatrização e cura de úlceras recorrentes.

Diagnóstico e Tratamento

É difícil diagnosticar úlceras pépticas em lactentes e crianças pequenas, possivelmente porque eles não conseguem descrever seus sintomas com acurácia. As crianças em idade escolar podem ter mais condições de indicar a localização da dor, de descrevê-la e de explicar se a dor ocorre em um determinado momento do dia e se ela está relacionada com a ingestão de alimentos.

Quando o médico suspeita de úlcera péptica em uma criança, um estudo radiográfico contrastado com bário (um meio de contraste) pode confirmar o diagnóstico. Neste procedimento, a criança ingere um líquido contendo bário, uma substância que delineia o estômago nas radiografias. Quando o estudo radiográfico é normal e o médico ainda suspeita de uma úlcera, pode ser realizado um exame endoscópico do estômago. Para minimizar o movimento e a dor durante o procedimento, as crianças com menos de 8 anos de idade geralmente são submetidas a uma anestesia geral.

O tratamento de uma úlcera péptica é o mesmo tanto para as crianças como para os adultos. Geralmente, o tratamento consiste no uso bloqueadores H2 (p.ex., ranitidina, famotidina e cimetidina). Ao invés de submeter a criança ao trauma e ao desconforto dos procedimentos diagnósticos, o médico pode considerar que a criança apresenta uma úlcera péptica e iniciar o tratamento com bloqueadores H2. Quando os sintomas desaparecem após o tratamento, o diagnóstico é então confirmado.

Para as crianças com Helicobacter pylori, algumas semanas de terapia dupla (com amoxicilina e metronidazol ou com amoxicilina e bismuto) devem erradicar o microrganismo. Em alguns casos, o médico utiliza uma terapia tripla com amoxicilina, metronidazol e bismuto.

Divertículo de Meckel

O divertículo de Meckel, um defeito congênito, é uma protuberância semelhante a uma bolsa da parede do intestino delgado.

O divertículo de Meckel é um defeito congênito muito freqüente. O distúrbio é descoberto acidentalmente em aproximadamente 2% dos pacientes adultos que são submetidos a uma cirurgia abdominal por outras razões.

Sintomas e Diagnóstico

Geralmente, o divertículo de Meckel não causa sintomas, mas a protuberância em forma de bolsa pode secretar ácido e causar úlceras, acarretando um sangramento retal indolor. As crianças com divertículo de Meckel produzem fezes cor de tijolo, de geléia de amora ou pretas. Nos adolescentes e adultos, é mais provável que o divertículo cause obstrução intestinal, produzindo cólicas e vômito. Em qualquer idade, pode ocorrer uma inflamação súbita do divertículo, uma condição denominada diverticulite aguda. A inflamação faz com que a pessoa afetada sinta uma dor intensa e dor à palpação abdominal, freqüentemente acompanhada de episódios de vômito.

O diagnóstico de divertículo de Meckel é difícil. Os exames laboratoriais nem sempre são úteis e apenas raramente o divertículo de Meckel pode ser visualizado em uma radiografia contrastada com bário do intestino delgado. O melhor exame é cintilografia do divertículo de Meckel, a qual pode ajudar o médico a estabelecer o diagnóstico em aproximadamente 90% dos casos suspeitos. Muitas vezes, o diagnóstico é estabelecido durante uma cirurgia realizada por outras razões.

Tratamento

Um divertículo assintomático não necessita de tratamento. Um divertículo que sangra é removido cirurgicamente, juntamente com qualquer área próxima de intestino lesado. Nas pessoas sintomáticas mas sem lesão intestinal próxima, somente o divertículo é removido. Quando, durante uma cirurgia realizada por um outro motivo, o cirurgião detecta um divertículo pequeno, ele geralmente não o remove, exceto quando ele estiver causando sintomas.



 

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