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As fibras nervosas localizadas no interior
e fora do cérebro são envoltas por uma membrana
isolante denominada bainha de mielina. De forma muito semelhante
ao isolamento de um fio elétrico, a bainha de mielina
permite que impulsos elétricos sejam conduzidos ao
longo da fibra nervosa com velocidade e precisão.
Quando a mielina é lesada, os nervos não conduzem
os impulsos nervosos de modo adequado. Ao nascimento, muitos
dos nervos dos recém-nascidos não possuem bainhas
de mielina maduras e, por essa razão, seus movimentos
são grosseiros, espasmódicos e incoordenados.
O desenvolvimento normal das bainhas de mielina encontra-se
comprometido em crianças que nascem com determinadas
doenças hereditárias como, por exemplo, a
doença de Tay-Sachs, a doença de Niemann-Pick,
a doença de Gaucher e a síndrome de Hurler.
Esse desenvolvimento anormal pode acarretar defeitos neurológicos
permanentes e, freqüentemente, extensos. O acidente
vascular cerebral, a inflamação, as doenças
auto-imunes e os distúrbios metabólicos figuram
entre os processos que podem causar destruição
da bainha de mielina no adulto, processo este denominado
desmielinização. Os venenos ou drogas, como
as bebidas alcoólicas consumidas excessivamente,
também podem lesar ou destruir a bainha de mielina.
Se a bainha tiver capacidade de reparação
ou de regeneração, a função
normal do nervo pode ser recuperada. Caso a desmielinização
seja extensa, o nervo geralmente morre, acarretando uma
lesão irreversível. A desmielinização
do sistema nervoso central (cérebro e medula espinhal)
ocorre em vários distúrbios de etiologia desconhecida
(doenças desmielinizantes primárias). A esclerose
múltipla é a mais conhecida.
Esclerose Múltipla
A esclerose múltipla é um distúrbio
no qual ocorre desmielinização de áreas
isoladas dos nervos dos olhos, do cérebro e da medula
espinhal. O termo esclerose múltipla é decorrente
das múltiplas áreas de cicatrização
(esclerose) que representam muitos focos de desmielinização
no sistema nervoso. Os sinais e sintomas neurológicos
da esclerose múltipla são tão diversos
que o médico pode não diagnosticá-la
quando os primeiros sintomas ocorrem. Como a doença
freqüentemente piora lentamente no decorrer do tempo,
os indivíduos afetados apresentam períodos
de saúde relativamente boa (remissões) alternados
com períodos de fraqueza (exacerbações).
Cerca de 400.000 americanos, na maioria adultos jovens,
apresentam a doença.
Causas
A causa da esclerose múltipla é
desconhecida, mas suspeita-se que um vírus ou algum
antígeno desconhecido sejam os responsáveis
que desencadeiam, de alguma maneira, um processo autoimune,
geralmente no início da vida. Em seguida, o corpo,
por alguma razão, produz anticorpos contra sua própria
mielina. Os anticorpos produzem inflamação
e lesam a bainha de mielina. A hereditariedade parece ter
um papel na esclerose múltipla. Cerca de 5% dos indivíduos
afetados posuem uma irmã ou irmão que também
apresenta a doença e aproximadamente 15% deles possuem
um parente próximo afetado. Os fatores ambientais
também têm um papel. A esclerose afeta 1 em
cada 2.000 indivíduos que passam a primeira década
de sua vida em climas temperados, mas ela afeta somente
1 em cada 10.000 indivíduos nascidos em regiões
tropicais. A esclerose múltipla quase nunca afeta
indivíduos nascidos e criados próximos ao
equador. O clima no qual o indivíduo viveu a primeira
década de vida parece ser mais importante que o clima
onde ele passou os anos subseqüentes.
Sintomas
Geralmente, os sintomas surgem entre os 20
e os 40 anos de idade. As mulheres são mais propensas
à doença que os homens. A desmielinização
pode ocorrer em qualquer parte do cérebro ou da medula
espinhal e os sintomas dependem da área afetada.
A desmielinização nas vias nervosas que conduzem
sinais aos músculos acarreta problemas da mobilidade
(sintomas motores), enquanto a desmielinização
de vias nervosas que conduzem as sensações
ao cérebro causa alterações sensitivas
(sintomas sensoriais). Os sintomas iniciais mais comuns
são o formigamento, a dormência ou outras sensações
peculiares nos membros superiores, nos membros inferiores,
no tronco ou na face. O indivíduo pode apresentar
perda da força ou da destreza em um membro inferior
ou em uma mão. Alguns indivíduos apresentam
apenas sintomas oculares e podem apresentar visão
dupla, visão borrada ou nublada, cegueira parcial,
dor em um dos olhos ou perda da visão central (neurite
óptica). Os sintomas iniciais podem incluir alterações
emocionais ou mentais. Essas indicações vagas
de desmielinização cerebral algumas vezes
iniciam muito antes que a doença seja reconhecida.
A esclerose múltipla apresenta uma evolução
variável e imprevisível. Em muitos indivíduos,
a doença começa com um sintoma isolado, seguido
por meses ou anos sem outros sintomas. Em outros, os sintomas
tornam-se piores e mais generalizados em semanas ou meses.
O clima muito quente, um banho de imersão ou uma
ducha quente ou mesmo um quadro febril pode piorar os sintomas.
A recidiva da doença pode ocorrer espontanteamente
ou pode ser desencadeada por uma infecção
(p.ex., gripe). Quando as recidivas tornam-se mais freqüentes,
a incapacitação piora e pode tornar-se permanente.
Apesar da incapacitação, quase todos os indivíduos
com esclerose múltipla têm uma expectativa
de vida normal.
Sintomas Comuns da Esclerose Múltipla
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Sintomas Sensoriais (alterações
da sensibilidade)
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Sintomas Motores (alterações
da função muscular)
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Dormência
Formigamento Outras sensações anormais
(disestesias) Distúrbios visuais Dificuldade
de atingir o orgasmo, ausência de sensibilidade
vaginal, impotência sexual nos homens Tontura
ou vertigem |
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Fraqueza, atitude
desajeitada Dificuldade de marcha ou de manutenção
do equilíbrio Tremor Visão dupla Problemas
de controle intestinal ou da bexiga, constipação
Rigidez, instabilidade, cansaço anormal |
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Diagnóstico
Os médicos consideram a possibilidade
de esclerose múltipla em indivíduos jovens
que subitamente apresentam visão borrada, visão
dupla ou anormalidades motoras e sensoriais em diferentes
partes do corpo. O padrão de recidivas e recuperações
torna o diagnóstico mais provável. Quando
os médicos suspeitam de esclerose múltipla,
eles realizam um exame neurológico minucioso durante
o exame físico. Os sinais que indicam um funcionamento
inadequado do sistema nervoso são os movimentos oculares
incoordenados, a fraqueza muscular ou a dormência
em diversas partes do corpo. Outros achados, como a inflamação
do nervo óptico e o fato dos sintomas surgirem e
desaparecerem, permitem o estabelecimento do diagnóstico
com razoável certeza. Não existe um exame
que por si seja diagnóstico. No entanto, alguns exames
laboratoriais podem diferenciar a esclerose múltipla
de outros distúrbios com sintomas similares.
O médico pode realizar uma punção
lombar (punção espinhal) para coletar uma
amostra de líquido cefalorraquidiano. Os indivíduos
com esclerose múltipla tendem a apresentar uma quantidade
um pouco mais elevada de leucócitos e uma concentração
discretamente mais elevada de proteínas do que o
normal no líquido cefalorraquidiano. A concentração
de anticorpos no líquido cefalorraquidiano pode ser
elevada e tipos específicos de anticorpos e outras
substâncias estão presentes em até 90%
dos indivíduos com esclerose múltipla. A ressonância
magnética (RM) é a técnica mais sensível
de diagnóstico por imagem, podendo revelar áreas
desmielinizadas do cérebro. A ressonância magnética
pode inclusive diferenciar áreas de desmielinização
ativa e recente de outras mais antigas ocorridas tempos
atrás. Os potenciais evocados são um tipo
de exame que registra as respostas elétricas no cérebro
quando os nervos são estimulados. Por exemplo, o
cérebro normalmente responde a uma luz cintilante
ou a um ruído com padrões característicos
de atividade elétrica. Nos indivíduos com
esclerose múltipla, a resposta pode ser mais lenta
porque a condução dos sinais ao longo de fibras
nervosas desmielinizadas encontra- se comprometida.
Tratamento
O beta-interferon injetável, um tratamento
relativamente novo, reduz a freqüência das recidivas.
Outros tratamentos promissores ainda sob investigação
incluem outros interferons, a mielina oral e o copolímero
1, os quais ajudam a evitar que o corpo ataque sua própria
mielina. Os benefícios da plasmaferése e de
gamaglobulinas intravenosas ainda não foram estabelecidos
e esses tratamentos não são práticos
para uma terapia de longa duração. Há
décadas, os corticosteróides, como a prednisona
tomada pela via oral ou a metilprednisolona administrada
pela via intravenosa, durante períodos curtos para
aliviar os sintomas agudos têm sido a principal forma
de terapia. Apesar deles poderem reduzir a duração
dos episódios, esses medicamentos não impedem
a incapacitação progressiva a longo prazo.
Os benefícios dos corticosteróides podem ser
superados pelos muitos efeitos colaterais que essas drogas
podem causar quando utilizadas prolongadamente (aumento
da susceptibilidade à infecção, diabetes,
aumento de peso, fadiga, osteoporose e úlceras).
Outras terapias imunossupressoras, como a
azatioprina, a ciclofosfamida, a ciclosporina e a irradiação
total do sistema linfóide, não demonstraram
ser úteis e podem causar complicações
significativas. Freqüentemente, os indivíduos
com esclerose múltipla podem ter uma vida ativa,
embora eles possam cansar-se facilmente e possam não
conseguir cumprir um esquema muito exigente. A prática
de exercícios regulares (pedalar uma bicicleta ergométrica,
caminhar, nadar ou realizar alongamento) reduz a espasticidade
e ajuda a manter a saúde cardiovascular, muscular
e psicológica. A fisioterapia pode ajudar na manutenção
do equilíbrio, na capacidade de deambulação
e na amplitude dos movimentos e pode reduzir a a espasticidade
e a fraqueza. Os nervos que controlam a micção
ou a evacuação também podem ser afetados,
levando à incontinência ou à retenção
urinária ou fecal. Muitos indivíduos aprendem
como passar uma sonda vesical para esvaziar a bexiga e iniciam
um programa terapêutico com o uso de emolientes fecais
ou laxantes para auxiliar a evacuação. Aqueles
que se tornam fracos e aqueles incapazesde se movimentar
com facilidade podem apresentar úlceras de decúbito
e, por essa razão, eles e os responsáveis
por seus cuidados devem tomar um cuidado especial para evitar
esse tipo de lesão cutânea.
Doenças que Causam Sintomas
Similares aos da Esclerose Múltipla
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Infecções cerebrais
virais ou bacterianas (doença de Lyme, AIDS,
sífilis)
Alterações estruturais da base
do crânio e da coluna vertebral (artrite grave
do pescoço, ruptura de disco intervertebral)
Tumores ou cistos do cérebro e da medula
espinhal (siringomielia)
Degeneração espinocerebelar e ataxias
hereditárias (distúrbios nos quais a ação
muscular é irregular ou a coordenação
muscular é anormal)
Pequenos acidentes vasculares cerebrais (especialmente
em indivíduos com diabetes ou hipertensão
arterial propensos à esse tipo de acidente vascular
cerebral)
Esclerose lateral amiotrófica (doença
de Lou Gehrig)
Inflamação dos vasos sangüíneos
do cérebro ou da medula espinhal (lúpus,
arterite)
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Outras Doenças Desmielinizantes Primárias
A encefalomielite disseminada aguda (encefalomielite
pós-infecciosa) é um tipo raro de inflamação
que acarreta a desmielinização e que ocorre
geralmente após uma infecção viral
ou uma vacinação. Acredita-se que essa doença
seja uma reção imune anormal desencadeada
pelo vírus. A síndrome de Guillain-Barré
parece ser um distúrbio similar que afeta os nervos
periféricos. A adrenoleucodistrofia e a adrenomieloneuropatia
são doenças metabólicas hereditárias
raras. A adrenoleucodistrofia afeta meninos até os
sete anos de idade, apesar de existir uma forma com desenvolvimento
mais lento da doença que pode afetar adultos jovens,
na segunda década de vida. A adrenomieloneuropatia
afeta adolescentes do sexo masculino. Nessas doenças,
uma desmielinização disseminada é acompanhada
por um funcionamento anormal das glândulas adrenais.
Finalmente, ocorre deterioração do estado
mental e a criança apresenta espasticidade e cegueira.
Não existe uma cura para essas doenças.
Os suplementos dietéticos com trioleato de glicerol
e o trierucato de glicerol (conhecidos como óleo
de Lorenzo) melhoram a composição dos ácidos
graxos do organismo, mas não foi demonstrado que
essas substâncias melhoram a evolução
da doença. O transplante de medula óssea é
um tratamento experimental. A atrofia óptica hereditária
de Leber causa desmielinização, levando à
cegueira parcial. A doença é mais comum em
homens e, geralmente, os primeiros sintomas ocorrem no final
da adolescência e no início da segunda década
de vida. Essa doença é herdada através
da mãe e parece ser transmitida pelas mitocôndrias
(a fábrica de energia das células). A infecção
causada pelo vírus linfotrópico dos linfócitos
T humanos (HTLV) pode causar desmielinização
na medula espinhal (mielopatia associada ao HTLV). Esta
doença é mais comum em certos países
tropicais e em algumas regiões do Japão. A
doença piora ao longo dos anos e acarreta espasticidade
e fraqueza gradual dos membros inferiores e deteriora a
função da bexiga e dos intestinos.
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