[an error occurred while processing this directive]

[an error occurred while processing this directive]

MSD
Pacientes

Sumário
Seção - Distúrbios da Saúde Mental
Capítulo 87 - Sexualidade e Distúrbios Psicossexuais

 

A sexualidade é uma parte normal da experiência humana. No entanto, os tipos de comportamento sexual e as atitudes relacionadas à sexualidade que são considerados normais variam enormemente em uma mesma cultura e entre culturas diferentes. Por exemplo, a masturbação, a qual era outrora considerada uma perversão e mesmo causa de doença mental é atualmente reconhecida como uma atividade sexual normal que ocorre ao longo de toda a vida. Estima-se que mais de 97% dos homens e 80% das mulheres masturba-se. Embora a sua prática seja normal e freqüentemente recomendada como uma opção de “sexo seguro”, ela pode causar culpa e sofrimento psicológico originados pelas atitudes desaprovadoras de outros. Isto freqüentemente acarreta uma sofrimento considerável e pode inclusive afetar o desempenho sexual.

De forma similar, a homossexualidade, outrora considerada como anormal pela profissão médica, não é mais considerada uma doença e é amplamente reconhecida como uma orientação sexual que está presente desde a infância. A prevalência da homossexualidade é desconhecida, mas estima- se que cerca de 6 a 10% dos adultos estejam mantendo relações exclusivamente homossexuais durante a vida. Uma porcentagem muito mais elevada teve contatos com indivíduos do mesmo sexo na adolescência, mas, na vida adulta, apresentam um comportamento heterossexual. As causas da homossexualidade e da heterossexualidade são desconhecidas. Não foram identificadas influências hormonais, biológicas ou psicológicas particulares que contribuem substancialmente para a orientação sexual de um indivíduo. Os homossexuais descobrem que têm atração por indivíduos do mesmo sexo da mesma forma que os heterossexuais descobrem sua atração por pessoas do sexo oposto.

A atração parece ser o resultado final de influências biológicas e ambientais e não se trata de uma escolha deliberada. Por essa razão, o termo popular “preferência sexual” faz pouco sentido no que concerne à orientação sexual. A maioria dos homossexuais ajustam-se bem à sua orientação sexual, embora devam superar o preconceito e a reprovação social. Esse ajuste pode levar um longo tempo e pode ser associado a um estresse psicológico considerável. Muitos homens e mulheres homossexuais sofrem discriminação social e nos locais de trabalho, o que agrava ainda mais o estresse. Para alguns indivíduos heterossexuais e homossexuais, a atividade sexual com parceiros diferentes é uma prática freqüente durante toda a vida. Este tipo de comportamento pode indicar uma baixa capacidade de vinculação emocional íntima. Esta pode ser uma razão da busca de aconselhamento profissional, especialmente desde que a transmissão de certas doenças (p.ex., a infecção com o vírus da imunodeficiência humana ou AIDS, a sífilis, a gonorréia e câncer de colo uterino) está associada ao hábito de ter muitos parceiros sexuais.


Distúrbios da Identidade de Gênero

O distúrbio da identidade de gênero é o desejo de ser do sexo oposto ou a impressão de estar aprisionado em um corpo do outro sexo. A diferença entre sexo e gênero pode ser simplificada da seguinte forma: o sexo é a masculinidade ou a feminilidade biológica e o gênero é como um indivíduo vê a si mesmo, como do sexo masculino ou feminino. O papel sexual é o comportamento público associado à escolha de um parceiro sexual (homossexual, heterossexual ou bissexual). Para a maioria dos indivíduos, a identidade de gênero (o sentimento íntimo de ser masculino ou feminino) está de acordo com o papel de gênero (p.ex., um homem sente e age como um homem). A identidade do gênero geralmente é estabelecida no início da infância (18 a 24 meses de idade). Os meninos percebem que são meninos e as meninas, que são meninas.

Apesar de uma criança algumas vezes demonstrar preferência por atividades consideradas como mais apropriadas ao outro sexo, as crianças com identidade de gênero normal ainda vêem-se como um membro de seu próprio sexo biológico. Isto significa que uma menina que gosta de jogar beisebol e de lutas não tem um problema de identidade de gênero se ela ver a si mesma como mulher e estiver satisfeita com o seu sexo. Similarmente, um menino que brinca com bonecas e prefere cozinhar em vez de praticar esportes não tem um problema de identidade de gênero, exceto se ele não se identificar como sendo do sexo masculino ou não se sentir confortável com o seu sexo biológico. Embora uma criança criada como um membro do sexo oposto possa ficar confusa no que concerne ao seu gênero, essa confusão freqüentemente desaparece mais tarde, no final da infância. As crianças que nascem com genitálias que não são claramente masculinas ou femininas normalmente não apresentam um problema de identidade de gênero se elas forem criadas definitivamente como sendo de um sexo ou de outro, ainda que sejam educadas como se fossem do sexo oposto ao seu sexo genético.

Transexualismo

O transexualismo é um distúrbio de identidade de gênero característico. Os indivíduos com esse distúrbio acreditam ser vítimas de um acidente biológico (ocorrido antes do nascimento) e que estão cruelmente aprisionados em um corpo incompatível com sua verdadeira identidade de gênero. A maioria dos transexuais são biologicamente do sexo masculino que identificam a si mesmos como do sexo feminino no início da infância e têm repugnância pelos seus órgãos genitais e suas características masculinas. O transexualismo parece ser menos comum nas mulheres biológicas. Os transexuais podem buscar por suporte psicológico, seja para auxiliá-los a enfrentar as dificuldades de viver em um corpo no qual eles não se sentem confortáveis ou para ajudá-los a realizar uma mudança de gênero. Outros podem buscar uma mudança de aparência com a ajuda de médicos especializados em troca de sexo e em cirurgia plástica.

Alguns transexuais podem ficar satisfeitos com a mudança do papel de gênero sem submeter-se a uma cirurgia, trabalhando, vivendo e vestindo-se como membros do sexo oposto. Eles mudam a aparência externa, podem submeter- se a tratamentos hormonais e obtêm uma documentação que certifica a mudança, mas, geralmente, não vêem a necessidade de submeter-se a cirurgias arriscadas e caras. No entanto, muitos transexuais parecem beneficiar- se mais com uma combinação de aconselhamento, terapia hormonal e cirurgia de mudança de sexo. Nos homens biológicos, a mudança de sexo é realizada através do uso de hormônios femininos (os quais causam crescimento das mamas e outras alterações do corpo) e da cirurgia de remoção do pênis e dos testículos e criação de uma vagina artificial.

Nas mulheres biológicas, a mudança de sexo é realizada através de uma cirurgia de remoção das mamas e dos órgãos reprodutivos internos (útero e ovários), fechamento da vagina e criação de um pênis artificial. O uso de hormônios masculinos (testosterona) é importante na transformação da mulher em homem e deve anteceder a cirurgia. Com o tratamento com testosterona, ocorre crescimento da pilificação facial e engrossamento permanente da voz. Embora os transexuais que se submetem a uma cirurgia de mudança de sexo sejam incapazes de conceber filhos, eles freqüentemente são capazes de manter relações sexuais satisfatórias. A capacidade de atingir o orgasmo é freqüentemente preservada após a cirurgia e, após a cirurgia, alguns referem sentir-se sexualmente confortáveis pela primeira vez na vida. Entretanto, são poucos os transexuais que se submetem a mudança de sexo cirúrgica com o objetivo único de ser capaz de funcionar sexualmente como o sexo oposto. A confirmação da identidade de gênero é o motivador em geral.


Parafilias

As parafilias (atrações desviadas) em suas formas extremas são desvios socialmente inaceitáveis das normas que regem tradicionalmente as relações sexuais. As características fundamentais de uma parafilia incluem os comportamentos ou fantasias sexuais excitantes que são repetitivos e intensos e que geralmente envolvem objetos (sapatos, roupas íntimas, produtos de couro ou de borracha), a provocação de dor em si mesmo ou no parceiro ou manter relações sexuais com indivíduos sem o seu consentimento (crianças, indivíduos inválidos ou em situações de estupro). Uma vez estabelecidos (em geral, no final da infância ou próximo da puberdade), é comum que esses padrões de excitação persistam por toda a vida. É muito freqüente um certo grau de variedade nas relações e fantasias sexuais dos adultos. Quando existe um acordo mútuo, os comportamentos sexuais alternativos não lesivos podem passar a fazer parte intrínseca de uma relação amorosa e carinhosa. No entanto, quando levados a extremos, esses comportamentos sexuais são parafilias, distúrbios psicossexuais que comprometem de modo importante a capacidade de manter uma atividade sexual afetiva e recíproca. Os parceiros de pessoas com uma parafilia geralmente sentem-se como se fossem objetos ou como se não fossem importantes ou que são desnecessários na relação sexual. As parafilias costumam assumir a forma de fetichismo, transvestismo, pedofilia, exibicionismo, voyeurismo, masoquismo ou sadismo, entre outras. A maioria dos indivíduos com parafilias é do sexo masculino e muitos deles apresentam mais de um tipo de parafilia.

Fetichismo

No fetichismo, a atividade sexual utiliza objetos físicos (o fetiche), às vezes preferindo-os no lugar do contato com seres humanos. Os fetichistas podem ser estimulados e gratificados sexualmente através do uso de roupas íntimas de uma outra pessoa, do uso de peças de borracha ou de couro ou segurando, friccionando ou cheirando objetos (p.ex., sapatos de salto alto). Os indivíduos com esse distúrbio podem ser incapazes de realizar a função sexual sem os seus fetiches.

Transvestismo

No transvestismo, um homem prefere vestir roupas femininas ou, menos comumente, uma mulher prefere usar roupas masculinas. No entanto, em nenhum caso a pessoa deseja mudar de sexo, como no caso dos transexuais. Esse uso invertido de roupas nem sempre é considerado como um distúrbio mental e pode não afetar as relações sexuais de um casal de modo adverso. O transvestismo apenas será considerado um distúrbio quando ele causa sofrimento, deterioração de algum tipo ou um comportamento insensato que pode acarretar lesões, perda do trabalho ou emprisionamento. Os travestis também usam roupas do sexo oposto por razões não relacionadas à estimulação sexual como, por exemplo, para reduzir a ansiedade, para relaxar ou para vivenciar o lado feminino de sua personalidade que é masculina sob outros aspectos.

Pedofilia

A pedofilia é uma preferência pela atividade sexual com crianças pequenas. Nas sociedades ocidentais, a pedofilia geralmente é considerada como um desejo de manter atividade sexual com crianças com até treze anos ou mais jovens. Um indivíduo com diagnóstico de pedofilia possui pelo menos 16 anos de idade e, geralmente, é 5 anos mais velho do que a criança vítima. Embora as leis variem de um país a outro (ou de um estado a outro), a legislação geralmente considera que um indivíduo comete um delito considerado estupro quando a criança tem 16 anos ou menos e o adulto possui mais de 18 anos. Os delitos caracterizados como estupro freqüentemente não se enquadram na definição de pedofilia. Um pedófilo angustia-se ou preocupa-se intensamente com as fantasias sexuais relacionadas a crianças, mesmo quando realmente não ocorre uma atividade sexual.

Alguns pedófilos têm atração somente por crianças, freqüentemente dentro de uma faixa estária específica, enquanto outros têm atração tanto por crianças quanto por adultos. Tanto os homens quanto as mulheres podem apresentar esse distúrbio e as vítimas podem ser crianças de ambos os sexos. Os pedófilos podem centrar a atenção somente sobre crianças de suas próprias famílias (incesto) ou podem abusar de crianças da comunidade. A força e a coerção podem ser utilizadas para submeter sexualmente as crianças e o pedófilo pode ameaçar a vítima para não ser denunciado. A pedofilia pode ser tratada com a psicoterapia e medicamentos que alteram o impulso sexual. Esse tratamento pode ser solicitado voluntariamente ou apenas após uma detenção pelo delito e os conseqüentes processos legais. Alguns pedófilos podem responder ao tratamento; outros, não. O encarceramento, mesmo durante longos períodos, não muda as fantasias ou os desejos do pedófilo.

Exibicionismo

No exibicionismo, o indivíduo (em geral, um homem) expõe seus órgãos genitais para estranhos incautos e excitam-se sexualmente ao fazêlo. Ele pode masturbar-se ao realizar esse ato. Quase nunca o exibicionista busca um contato sexual e, por essa razão, ele raramente comete um estupro. A maioria dos exibicionistas detidos têm menos de quarenta anos de idade. Embora as mulheres possam exibir seus corpos em poses provocantes, o exibicionismo raramente é considerado um distúrbio psicossexual em mulheres.

Voyeurismo

No voyeurismo, o indivíduo excita-se sexualmente ao observar alguém tirando a roupa, nu ou praticando sexo. É o ato de espreitar secretamente que excita o voyeur e não a atividade sexual com o observado. É particularmente freqüente um certo grau de voyeurismo entre meninos e homens adultos e a sociedade considera normais as formas leves desse comportamento. No entanto, quando trata-se de um distúrbio, o voyeurismo pode tornar-se o método preferido de atividade sexual e pode consumir incontáveis horas de busca. A maioria dos voyeurs é do sexo masculino. A quantidade e a variedade de materiais e shows de sexo explícito (p.ex., shows de strip-tease masculino) disponíveis para as mulheres heterossexuais aumentaram significativamente, mas a participação nessas atividades não possui o elemento da observação secreta, a qual é a característica fundamental do voyeurismo.

Masoquismo e Sadismo

O masoquismo constitui a obtenção de prazer sexual ao ser lesado fisicamente, ameaçado ou submetido a abusos. O sadismo, o oposto do masoquismo, é a obtenção da satisfação sexual por parte de um indivíduo ao infligir sofrimento físico ou psicológico ao parceiro sexual. Um certo grau de sadismo e de masoquismo está comumente presente em relações sexuais saudáveis e os parceiros mutuamente compatíveis freqüentemente o buscam um no outro. Por exemplo, o uso de lenços de seda para simular ataduras ou as palmadas suaves durante a atividade sexual são práticas comuns entre parceiros aquiescentes e não são considerados práticas sadomasoquistas.

No entanto, o masoquismo ou o sadismo levado a extremos podem acarretar um dano físico ou psicológico grave, incluindo a morte. O masoquismo sexual implica na necessidade de ser humilhado, agredido ou alguma outra forma de submissão por um parceiro agressivo, freqüentemente sádico, com o objetivo de obter a excitação sexual. Por exemplo, a atividade sexual desviada pode incluir a asfixiofilia, durante a qual o indivíduo é parcialmente asfixiado ou estrangulado (pelo parceiro ou pela auto-aplicação de uma forca de corda em torno do pescoço). A diminuição temporária da oxigenação cerebral no momento do orgasmo é considerado um intensificador do prazer sexual.

No entanto, essa prática pode causar acidentalmente a morte. O sadismo sexual pode existir somente nas fantasias ou pode ser necessário para a obtenção da excitação ou do orgasmo. Alguns sádicos aprisionam “parceiros” surpresos e aterrorizados que não consentem com essas atividades e são violados. Outros sádicos buscam especificamente masoquistas sexuais através de anúncios ou outros meios e satisfazem suas necessidades sádicas com um masoquista aquiescente. As fantasias de controle total e de dominação são freqüentemente importantes e o sádico pode amarrar e amordaçar o parceiro de maneiras muito elaboradas. Nos casos extremos, o sádico pode torturar, ferir, apunhalar, aplicar choques elétricos ou assassinar o parceiro.


 
   

Manual Merck - Saúde para a Família Distúrbios Alimentares | Sumário | Distúrbios da Função Sexual Manual Merck - Saúde para a Família




[an error occurred while processing this directive]

 

Sumário

 

 

 

 

 

 

 

Sumário