Seção 20 - Distúrbios do Olho
Capítulo 226 - Glaucoma
O glaucoma é um distúrbio no qual a pressão do globo ocular aumenta, lesando o nervo óptico e causando perda da visão. Tanto a câmara anterior quanto a câmara posterior do olho são preenchidas por um líquido fino denominado humor aquoso. Normalmente, o líquido é produzido na câmara posterior, passa através da pupila para a câmara anterior e, a seguir, drena para fora do olho através dos canais de saída. Quando ocorre uma interrupção do fluxo do líquido, normalmente por uma obstrução que impede a saída do líquido da câmara anterior, a pressão aumenta. Normalmente, o glaucoma não tem uma causa conhecida. No entanto, ele algumas vezes ocorre em famílias.
Quando os canais de saída estão abertos, o distúrbio é denominado glaucoma de ângulo aberto. Quando eles são obstruídos pela íris, o distúrbio é denominado glaucoma de ângulo fechado. Um oftalmologista ou um optometrista pode medir a pressão na câmara anterior, denominada pressão ou tensão intraocular, através de um procedimento simples e indolor denominado tonometria. Geralmente, as medidas superiores a 20 a 22 milímetros indicam um aumento de pressão. Ocasionalmente, o glaucoma ocorre quando as pressões são normais. Algumas vezes, deve ser realizada uma série de mensurações durante um determinado período para se determinar que se trata realmente de um glaucoma.
O exame com o auxílio de um oftalmoscópio (um instrumento utilizado para observar o interior do olho) pode revelar alterações visíveis do nervo óptico causadas pelo glaucoma. Às vezes, o examinador utiliza uma lente especial para observar os canais de saída. Este procedimento é denominado gonioscopia. O glaucoma causa uma perda da visão periférica ou pontos cegos no campo visual. Para descobrir se esses pontos cegos existem, o examinador pede ao indivíduo que ele olhe para a frente, em direção a um ponto central, e indique quando ele vê uma luz. O exame pode ser realizado utilizando uma tela e um apontador ou um dispositivo automático que utiliza pontos de luz.
Glaucoma de Ângulo Aberto
No glaucoma de ângulo aberto, o líquido drena muito lentamente da câmara anterior. A pressão aumenta gradualmente, quase sempre em ambos os olhos, causando lesão do nervo óptico e uma perda da visão lenta e progressiva. A perda da visão começa nas bordas do campo visual e, quando não tratada, acaba comprometendo todo o campo visual e, em última instância, acarreta a cegueira. A forma mais prevalente de glaucoma, o glaucoma de ângulo aberto, é comum após os 35 anos de idade, mas, ocasionalmente, ocorre em crianças. A doença tende a ocorrer em famílias e é mais comum em indivíduos diabéticos ou míopes. O glaucoma de ângulo aberto ocorre mais freqüentemente e pode ser mais grave em indivíduos da raça negra que em indivíduos da raça branca.
Drenagem Normal do Líquido
O líquido é produzido na câmara posterior, passa através da pupila até a câmara anterior e, a
seguir, drena através dos canais de saída.
Sintomas e Diagnóstico
Inicialmente, o aumento da pressão intraocular não causa sintomas. Posteriormente, os sintomas podem incluir uma redução da visão periférica, cefaléia (dor de cabeça) e distúrbios visuais vagos (p.ex., o indivíduo vê halos em torno das lâmpadas elétricas ou apresenta dificuldade para adaptar-se à escuridão). Finalmente, pode ocorrer “visão em túnel” (um estreitamento extremo dos campos visuais que torna difícil ver objetos em ambos os lados quando o indivíduo olha diretamente para a frente). O glaucoma de ângulo aberto pode ser totalmente assintomático até ocorrer uma lesão irreversível. Normalmente, o diagnóstico é estabelecido através da mensuração da pressão intraocular. Por essa razão, todo exame oftalmológico de rotina deve incluir a mensuração da pressão intraocular.
Tratamento
O tratamento pode ser mais bem sucedido quando instituído imediatamente. Quando o comprometimento da visão é acentuado, o tratamento pode evitar uma maior deterioração, mas, geralmente, a restauração completa da visão não é possível. Os colírios normalmente conseguem controlar o glaucoma de ângulo aberto. Comumente, o primeiro colírio prescrito contém um betabloqueador (p.ex., timolol, betaxolol, carteolol, levobunolol ou metipranolol), o qual pode diminuir a produção de líquido no olho. A pilocarpina também pode ser útil. Ela contrai as pupilas e aumenta a drenagem da câmara anterior. Outros medicamentos úteis (p.ex., epinefrina, dipivefrina e carbacol) atuam melhorando a drenagem ou reduzindo a produção de líquido. Um inibidor da anidrase carbônica (p.ex., acetazolamida) pode ser administrado pela via oral, ou a dorzolamida pode ser utilizada sob a forma de colírio. Quando o tratamento medicamentoso não consegue controlar a pressão intraocular ou quando os efeitos colaterais são intoleráveis, um cirurgião oftalmologista pode aumentar a drenagem da câmara anterior utilizando a laserterapia para criar um orifício na íris ou a cirurgia par remover parte da íris.
Glaucoma de Ângulo Fechado
O glaucoma de ângulo fechado causa episódios súbitos de aumento de pressão, geralmente em um olho. Nos indivíduos com esta doença, o espaço existente entre a córnea e a íris, onde o líquido é drenado para fora do olho, é mais estreito que o normal. Qualquer coisa que provoque a dilatação pupilar (p.ex., iluminação tênue, colírios que dilatam a pupila antes de um exame oftalmológico ou certos medicamentos orais ou injetáveis) pode acarretar uma interrupção da drenagem pela íris. Quando a drenagem do líquido é obstruída, a pressão intraocular aumenta subitamente.
Sintomas
Um episódio de glaucoma de ângulo fechado produz sintomas súbitos. Ele pode produzir uma discreta redução da visão, halos coloridos em torno de lâmpadas, dor no olho e cefaléia. Esses sintomas podem durar apenas algumas horas antes de ocorrer um episódio mais grave. Ele produz uma perda rápida da visão e uma dor latejante súbita e intensa no olho. A náusea e o vômito são comuns e podem levar o médico a pensar que se trata de um problema digestivo. A pálpebra edemacia e o olho torna-se hiperemiado e lacrimejante. A pupila dilata e não fecha normalmente em resposta à luz intensa. Embora a maioria dos sintomas desapareçam com uma medicação adequada, os episódios podem recorrer. Cada episódio reduz cada vez mais o campo visual.
Tratamento
Vários medicamentos podem ser utilizados para diminuir rapidamente a pressão intraocular durante um episódio agudo do glaucoma de ângulo fechado. A ingestão de uma mistura prescrita de água e glicerina pode reduzir a pressão elevada e interromper o episódio. Os inibidores da anidrase carbônica (p.ex., acetazolamida) também são úteis quando administrados no início do episódio. Os colírios de pilocarpina promovem a constrição pupilar, a qual, por sua vez, exerce pressão sobre a íris e, conseqüentemente, desobstrui os canais de saída. Os colírios contendo beta-bloqueadores também são utilizados para controlar a pressão. Após um episódio, o tratamento geralmente é mantido com colírios e doses variadas de um inibidor da anidrase carbônica. Nos casos graves, o manitol é administrado pela via intravenosa para reduzir a pressão. A laserterapia, a qual cria um orifício na íris para permitir a drenagem do líquido, ajuda a evitar novos episódios e, freqüentemente, cura a doença de modo permanente. Quando a laserterapia não resolve o problema, o médico realiza uma cirurgia para criar um orifício na íris. Casos em que ambos os olhos apresentam canais de saída estreitados, podem ser tratados, mesmo quando os episódios afetam apenas um deles.
Glaucoma Secundário
O glaucoma secundário é conseqüência de uma lesão ocular decorrente de uma infecção, uma inflamação, um tumor, uma catarata em desenvolvimento ou qualquer distúrbio ocular que interfere na drenagem do líquido da câmara anterior. As doenças inflamatórias (p.ex., uveíte) encontram-se entre os mais comuns desses distúrbios. Outras causas comuns incluem a obstrução da veia oftálmica, as lesões oculares, a cirurgia ocular e o sangramento intraocular. Alguns medicamentos (p.ex., corticosteróides) também podem aumentar a pressão do olho. O tratamento do glaucoma secundário depende da causa. Por exemplo, quando a causa é uma inflamação, o médico geralmente prescreve um corticosteróide para diminuir a inflamação, concomitantemente com medicamentos que causam a dilatação pupilar. Algumas vezes, a cirurgia é necessária.




